A Casa de Cultura do Parque tem o prazer de abrir o II Ciclo Expositivo de 2025, sob direção artística de Claudio Cretti, com abertura no sábado, dia 2 de agosto às 14h, com diversas exposições. O Projeto 280X1020 recebe “É de SANTO, é de BARRO“, de Antônio Pulquério (Campos Sales, CE, 1967).
A intervenção, que tem performance às 14h30 do artista no dia da abertura, subverte a lógica modular minimalista ao usar módulos artesanais de barro queimado. As peças, que remetem a Espadas de São Jorge ou Santa Bárbara, entrelaçam o terreno e o divino, refletindo o sincretismo cultural brasileiro onde santos católicos e divindades africanas se confundem. O texto de apresentação da mostra é de autoria de Tadeu Chiarelli.
Sobre É de SANTO, é de BARRO, de Antonio
Pulquério: Confluência exemplar
Não é de hoje que vários artistas se apropriam de uma lógica modular para a constituição de suas obras. No chão, mas sobretudo nas paredes, a ideia de colocar objetos que se repetem, um depois do outro, formando uma grade, está presente em várias exposições.
Para muitos, tal procedimento, que nasceu nos anos 1960 nos Estados Unidos, a partir de práticas pop/minimalistas, emulava o sequenciamento da produção industrial. Corroborando essa lógica, não se deve esquecer da própria configuração dessas obras, estruturadas por módulos assépticos e anônimos. A partir do sucesso desses trabalhos, que faziam uso dessa configuração destituída de qualquer traço autoral, surgem artistas querendo quebrar ou, pelo menos, subverter essa lógica, por entendê-la como um enaltecimento das práticas capitalistas de produção, despidas de qualquer dimensão humana. Esses artistas, então, passaram a produzir obras que, seguindo o ritmo modular dos trabalhos pop/minimalistas, elaboravam intervenções que contrariavam os valores ali enaltecidos.
Se os módulos dessa tradição se caracterizavam pela similitude, aliada ao bem-acabado e ao anonimato industrial, começam, então, a surgir artistas que passam a trabalhar com módulos produzidos artesanalmente, módulos similares, mas, ao mesmo tempo, diferentes entre si. Presos de forma sequencial nas paredes, esses objetos, com inegáveis marcas autorais, desestruturavam, ou pelo menos subvertiam, a valorização dos produtos da sociedade industrial que aquele procedimento antes procurara enaltecer.
Um exemplo do uso crítico daquele procedimento que antes servira para glorificar a lógica industrial/capitalista, seria a obra Parede da memória (1994), de Rosana Paulino, pertencente à Pinacoteca de São Paulo. Nela vemos uma série de módulos presos à parede, formando uma sequência que remete àquela lógica tão cara aos pop e minimalistas históricos. Mas os módulos de Paulino foram produzidos artesanalmente, são patuás, cuja origem antecede e supera o saber das sociedades industriais.
A intervenção “É de SANTO, é de BARRO”, que Antônio Pulquério produziu para a Casa de Cultura do Parque, em São Paulo, inscreve-se nessa espécie de tradição que se consolida nas últimas décadas. O artista produziu artesanalmente uma série de formas oblongas, colocadas dentro de pequenos potes, também artesanais, e presos, por sua vez, à parede da Casa. À distância, essa série remete à tradição pop/minimalista e, ao mesmo tempo, é seu oposto. Forma, na parede, uma estrutura em grade, mas, sendo seus módulos produzidos manualmente em barro queimado, um a um, remetem à forma de Espadas de São Jorge, ou de Santa Bárbara – uma espécie vegetal de origem africana
Note-se a origem multifacetada de É de SANTO, é de BARRO: descende estruturalmente de uma tradição norte-americana, passa por uma série de subversões durante as últimas décadas (a obra citada de Rosana Paulino é apenas uma delas), e desemboca nessa parede da Casa de Cultura do Parque que, por sua vez, passa a assemelhar-se a uma parede de milagres, ou, pelo menos, a uma parede revestida de oferendas aos dois santos católicos. Produzidos em barro, mas oferecidos aos santos, o terreno e o divino se entrecruzam na própria estruturação da peça, deixando muito longe seu primeiro surgimento como apologia à lógica industrial capitalista.
Mas outra camada se sobrepõe e se impõe à obra: em um país como o Brasil, São Jorge é Ogum e Santa Bárbara, Iansã, duas divindades de matriz africana e que aqui, por resistência – e por sobrevivência –, viram-se levados a se confundir com as divindades católicas.
Por todos esses motivos É de SANTO, é de BARRO deve ser entendida como a confluência exemplar de todas as camadas que hoje estruturam a arte contemporânea levada adiante no país.
Tadeu Chiarelli é Professor Sênior – PPGAV ECA-USP. Foi curador-chefe do Museu de Arte Moderna de São Paulo, diretor do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo e diretor geral da Pinacoteca de São Paulo. É curador e crítico de arte com textos publicados sobre arte contemporânea, arte modernista brasileira e sobre história da crítica de arte no Brasil
Abertura: sábado, 2 de agosto de 2025, 14h–18h
Visitação: de 2 de agosto a 9 de novembro de 2025, de quarta a domingo, das 11h às 18h
📍 Casa de Cultura do Parque

