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NO DECK | VERTEBRAL

A Casa de Cultura do Parque apresenta No Deck a instalação Vertebral composta por cerca de 600 pequenas hélices de alumínio numa extensão de aproximadamente 20 metros, criada por Marcone Moreira. Para a abertura, o artista maranhense radicado atualmente em Marabá, no Pará, conduziu uma visita guiada.

Utilizadas em motores de embarcação na Amazônia, essas hélices são adquiridas pelo artista em uma fundição artesanal que utiliza moldes de areia, preservando um método tradicional dessa fabricação. Para esta obra, Moreira experimenta seis diferentes tamanhos de hélices como se buscasse reproduzir o movimento sinuoso de uma grande cobra, evocando fluxos contínuos, deslocamentos e a força dos meios de transporte aquáticos.

Com um trabalho que há duas décadas investiga materiais ligados ao universo náutico, o artista incorpora em suas composições resíduos de madeira e metais, ampliando seu repertório por meio da carpintaria naval e das possibilidades escultóricas da fundição. Sua proximidade com a Mina de Carajás, considerada a maior mina de minério de ferro do mundo, reforça seu interesse pelas transformações industriais da matéria, que se entrelaçam numa pesquisa sobre deslocamento e paisagem. 

[NO DECK]

Vertebral

Marcone Moreira

26 abr–31 ago

Abertura: 26 de abril, sábado

Horários: 14h – 18h

Visita guiada: 15h


MARCONE MOREIRA: VERTEBRAL, A CARCAÇA E O RIO PRATEADO

Divino Sobral

O conjunto da obra de Marcone Moreira encontra-se enraizado na vida da região Norte do Brasil, sendo moldado por elementos que remetem à ação humana local, movimentada em conformidade com os sucessivos ciclos de modernização. Sua produção constrói uma complexa noção de pertencimento a partir da memória contida em resíduos e em objetos desgastados pelo uso humano e pelas marcas deixadas pelo tempo. Em sua obra, a linguagem do Norte se pronuncia no vínculo entre a região e o rol de materiais populares que comportam uma memória social, capaz de evidenciar a força da mão produtiva do povo nas diferentes atividades econômicas da Amazônia paraense. 

Vertebral é uma escultura composta por 600 hélices de embarcações e tem sua gênese ligada ao rico ambiente naval de Marabá. O material apropriado, um objeto serializado fundido com o mesmo metal em tamanhos diferentes, é explorado até o limite por meio da acumulação e da repetição em grande quantidade. Esses recursos técnicos permitem à forma crescer e se estender sobre o espaço evocando os rios Itacaiúnas e Tocantins e a massa de trabalhadores que deles vivem – os dois rios confluem nessa cidade onde o artista reside. Há que se considerar, também, que a utilização de um objeto produzido em metal, matéria rara na produção de Marcone Moreira, implica em ponderar sobre o impacto das indústrias mineradoras instaladas no Pará.  

A escultura é constituída pela repetição das centenas de hélices, alinhadas pelo eixo de um cabo de aço, formando uma linha contínua e sinuosa que irrompe no espaço e se estende por alguns metros sobre o piso, criando a peculiar situação de organismo-paisagem, uma forma polissêmica que se impõe operando por meio da linguagem e do seu potencial simbólico. Ela se arrasta como um corpo metálico de pouca altura e longa extensão, aparentemente silencioso e com seu peso assentado pela gravidade.

Observado em detalhe, o encaixe de uma hélice na outra assemelha-se ao encaixe das vértebras da coluna vertebral. E então, num ato de abstração surge a imagem de uma grande carcaça tombada no chão, um esqueleto agigantado que não se levanta nem pode mais se sustentar em pé, uma estrutura em crise, pois desprovida de sua função. Talvez, mais do que se mostrar como herdeira da perda de verticalidade da escultura de derivação minimalista e conceitual produzida a partir das últimas décadas do século XX, essa estranha carcaça pareça testemunhar a lembrança de uma vida feita às margens dos leitos dos rios brasileiros. Serpenteando no jardim, imaginariamente, lembra a carcaça da sucuri, a grande cobra d’água presente nos rios e nas narrativas dos ribeirinhos. Por outro lado, observada à distância e em sua relação com o espaço e a luminosidade circundante, a escultura refunda a noção de paisagem e sugere o desenhar do curso curvilíneo de um rio com águas de brilho prateado. Eis a poesia que vem da obra de um artista que pensa o seu tempo e seu espaço, e que faz da vida nos longínquos interiores do Brasil a substância de seu trabalho.

 

Divino Sobral é artista visual, historiador e curador. Recebeu, entre outras, premiações da Associação Brasileira de Críticos de Arte (2023) e do Prêmio Marcantônio Vilaça CNI Sesi Senai (2014). É diretor artístico da Cerrado Galeria em Brasília e Goiânia.

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